Sabe aquele cozinheiro que abre a geladeira, junta todas as sobras e ingredientes que encontra e apresenta um jantar saboroso aos convidados? Tive a sensação de que Cloud 9 surgiu assim. Concebido para exibição em TV, uma novidade nesse segmento, o filme, na verdade um documentário, faz uma retrospectiva dos dois anos que antecederam o nono título mundial de Slater.
Kelly emplacou seu primeiro título mundial aos 20 anos, portanto, quando em 2006, depois de ter repetido a façanha por 8 vezes, resolveu que queria mais, causou um certo impacto nos nomes mais cotados do WCT ao título mundial. E foi atrás. Aos 35... pódio again!
Cloud 9 não tem nada de especial em termos de ondas inéditas, porque apresenta cenas de ação dos campeonatos do ASP World Tour. O que mais impressiona é a radicalidade dos depoimentos dos atletas que enfrentam Slaler nessas baterias.
Assisti ao filme em Santos numa session do Projeto Cine Surf . Sala superlotada com direito a galera espalhada pelas escadarias do cinema. Em determinados momentos, atletas renomados como Fanning, Reynolds ou Taj, tiram risadas da platéia ao relatar o que sentem ao entrar numa bateria com Kelly. Impressionante a unanimidade. Supremacia Slater. Dentro e fora da água.
O adjetivo “ícone competitivo” que Tony Hawk, ídolo mundial do skate, atribuiu a Slater, vestiu como uma luva. Impressionante a fala de Kelly e seu olhar quando o assunto é competição. Totalmente focado na vitória, visivelmente irritado, sem perder a classe, nas raras vezes em que perde uma bateria. Fica muito evidente que ele sabe exatamente o que e como fazer para chegar lá.
Conta a lenda que uma imagem vale mais do que mil palavras... pois bem, nas cenas intercaladas aos depoimentos dos atletas, o talento do ídolo contemporâneo do surf aparece de uma forma tão eclética que é quase impossível definir um estilo, como fazíamos com Curren, Potter, Shaun. Slater parece dominar todos os estilos e mais, dança conforme a música. Simplesmente lê a onda e desenha magicamente suas manobras, como se fosse ele e a prancha um prolongamento da onda.
A sensação que fica ao terminar o documentário é de que o mundo seria bem melhor se cada um descobrisse o que veio fazer no mundo e mais do que isso, fizesse com tanta determinação e clareza quanto Slater. Deve ser muito confortável acordar todo dia sabendo qual seu real objetivo de vida e o quanto você está próximo de alcançá-lo, seja perseguindo o décimo título mundial de surf, desenhando o projeto de um prédio ou amassando o pão nosso de cada dia.
Por: Cris Shine